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Como a Igreja cresce?

Por Lourenço Stelio Rega

Crescimento é um fator que está presente em praticamente todas as esferas da vida. Uma criança nasce para crescer. Um estudante luta por desenvolver suas aptidões e crescer em uma determinada profissão. Um empresário procura trabalhar de modo a levar seus negócios ao crescimento.

No estudo "O que é a Igreja de Jesus Cristo?" desta série apresentamos alguns conceitos metafóricos do NT sobre a Igreja, que nos dão a indicativa de que cada aspecto da Igreja tem implícita a ideia do crescimento. Antes de partir aos céus Jesus deixou a orientação aos discípulos para que a Igreja se expandisse, crescesse, se espalhasse por toda a terra.

É muito comum pensarmos que o crescimento da Igreja só vem pela evangelização e obra missionária. De certo modo, isso é verdade, mas ninguém pode negar que, se essa for a única força motriz, o crescimento será apenas quantitativo com a ampliação do quadro de pessoas que aceitam a Jesus. Mas o crescimento quantitativo sozinho não consegue dar prosseguimento ao mais importante fator após a conversão, que é o amadurecimento da vida à semelhança de Jesus, levando a pessoa a ser sal e luz, levando a igreja à fraqueza espiritual e vivencial, como se fosse um "orfanato espiritual".

Juan Carlos Ortiz em seu controvertido Livro "O Discípulo" comenta que em uma certa ocasião estava analisando seu ministério e concluiu que o seu cuidado para com sua Igreja era como o da Coca-Cola quando vendia seus produtos, embora  relutasse em aceitar isso, pois a si mesmo se perguntava e a Deus como poderia ser assim se a sua Igreja estava crescendo e ultimamente isso tinha sido de 200 para 600 membros. Analisando um pouco mais, a questão chegou à conclusão de que o que estava ocorrendo era que a sua Igreja não estava efetivamente "crescendo" , mas realmente "engordando", pois na verdade o que conseguiu foi agrupar mais pessoas da mesma qualidade (bebês espirituais). E, assim, ninguém estava amadurecendo em Cristo. Antes eles contavam com 200 bebês espirituais, agora com 600. Desta forma, ele notou que, em vez de ser pastor de ovelhas, estava mais agindo como gerente de orfanato.

Essa história pode estar se repetido em muitas Igrejas e, quando isso ocorre, estamos apenas cumprindo o papel como que de um médico "Obstetra", que cuida do parto de novos bebês. Será necessário avançar um pouco mais desempenhando o papel da "pediatria" cumprindo a missão de levar os bebês espirituais ao crescimento e desenvolvimento.

Mas, afinal, em que consiste o crescimento da Igreja? Qual a sua força motriz? Qual a nossa parte?

Em que consiste o crescimento da Igreja?

Quando se fala em crescimento da Igreja logo pensamos nos bancos vazios, que é um visual não é nada agradável em um mundo materialista e imediatista em que vivemos, onde o que importa é a produtividade medida geralmente pelos números em uma tabulação estatística onde os resultados possam ser visualmente apreciados.

Ao estudar sobre a missão da Igreja, demonstramos que ela deve ser considerada de forma integral e ampla, chamamos até de missão tridimensional da Igreja, e isso nos leva a compreender, consequentemente, que o seu crescimento deverá ser mais abrangente e não apenas quantitativo. Em geral, no mundo da liderança corporativa são buscados resultados mensuráveis a partir de indicadores conectados à missão e visão da organização. Não é diferente na vida da Igreja, pois somos uma organização, mas também um organismo (Corpo de Cristo).

Por isso se torna importante estudar estes indicadores a partir dos tipos de crescimento que temos no Novo Testamento. Os estudos sobre crescimento da Igreja em geral falam em dois tipos de crescimentos: Quantitativo e qualitativo, mas desconsideram outros detalhes teológicos importantes. Por exemplo, no Novo Testamento a expressão "Crescimento da Igreja" está sempre ligada à ação de Deus, é ele quem dá o crescimento (I Coríntios 3.6). A ação humana está ligada à edificação da Igreja (Efésios 4.11-12). Por que essa diferença? Provavelmente porque Deus é a força mobilizadora de tudo e nosso papel é de promover o desenvolvimento junto ao ambiente concreto humano deixando os resultados para Deus que dará o crescimento.

Vejamos então estes indicadores do Novo Testamento de forma mais detalhada, e trocando a palavra crescimento por desenvolvimento:

1.     Desenvolvimento Quantitativo - Que inclui:

a. Numérico: Envolvendo a quantidade de pessoas que são alcançadas pelo Evangelho, seja na Igreja local, seja na Igreja em todo mundo. Consulte os seguintes textos: Mateus 28.19; Atos 2.47; 4.4; 5.14; 6.1,7; 8.6, etc.

b. Geográfico: Que envolve a expansão geográfica do Evangelho pelo mundo. Em Atos 1.8 Jesus ordenou que a Igreja se espalhasse por toda a terra começando por Jerusalém. Os cristãos da Igreja de Jerusalém possivelmente não entenderam essa ordem de Jesus e continuaram em Jerusalém, talvez pensando que o Cristianismo devesse se desenvolver como sua antiga religião judaica e assim começaram a promover o que podemos chamar de desenvolvimento "centrípeto" (Aquele que converge para o centro) da Igreja. Era assim a vida religiosa judaica – tudo era centralizado em Jerusalém. Numericamente, a Igreja cresceu tanto que começou a ter sérios problemas de convivência (Atos 6.1-7). Embora estivesse crescendo numericamente em Jerusalém, Deus queria que o Evangelho se espalhasse. Cremos que um dos propósitos em Deus permitir a morte de Estevão tenha sido a de "forçar" o seu povo a sair de Jerusalém e se espalhar por toda a terra (Atos 8.14; 9.31; 11.19). Sem isso, talvez o Cristianismo fosse hoje mera religião regional. O desenvolvimento ordenado por Jesus para a Igreja é o crescimento "centrífugo", isto é, aquele que se expande de um ponto (centro – Jerusalém) de partida.

c. Étnico: Não era a vontade de Deus que o Evangelho fosse racial, mas que se espalhasse por todas as nações e povos, ainda que a Igreja cristã primitiva continuasse a manter grande barreira exclusivista do Evangelho. Isso é fácil entender quando o Evangelho chega a Samaria e aos gentios provocando espanto aos judeus-cristãos de Jerusalém (Atos 8.14-25; 10.1-11.21). Para quebrar essa outra barreira da Igreja de Jerusalém, Deus precisou repetir a experiência do batismo no Espírito Santo e providenciar uma visão estonteante a Pedro (Atos 8.15-17; 10.9ss). Veja também Mateus 28.19; Lucas 24.47).

2. Desenvolvimento Qualitativo - Que inclui:

a. Doutrinal: É o desenvolvimento no conhecimento doutrinário da Palavra de Deus. Atos 2.42ss; Efésios 4.11-16 (Especialmente o v.14).

b. Vivencial: É o desenvolvimento na experiência cristã de obediência pessoal e comunhão com Deus, envolvendo o amadurecimento espiritual dos membros da Igreja. Efésios 4.15; Colossenses  3.1-11; Filipenses 2.12; I Pedro 2.2; II Pedro 3.17-18.

c. Operacional: Envolve a capacitação (treinamento) dos crentes para o desempenho de suas funções na Igreja por meio dos dons de serviço. É o abandono à improvisação que, muitas vezes ocorre em Igrejas. Veja: Atos 6.1-7; Romanos 12.4-8 (Exemplo: O que ensina, esmere-se no fazê-lo, v.7); Efésios 4.11-16 (Especialmente o v.12).

3.     Desenvolvimento Orgânico: Que envolve a ideia do desenvolvimento da vida em comunidade incluindo:

a. Convivencial: É o desenvolvimento da vida em comunidade, onde os irmãos levam as cargas uns dos outros (Gálatas 6.2); amam uns aos outros (João 13.34; 17.19-23); oram uns pelos outros (Tiago 5.16); interessam-se uns pelos outros (Atos 2.44-45; 4.32-35; zelam uns pelos outros (Hebreus 12.14-15); etc. Sobre isso seria interessante que você lesse o capítulo 10 (Cuidando da Saúde do Corpo) do Livro 'A Igreja Corpo Vivo de Cristo" de Ray C. Stedman (Editora Mundo Cristão).

b. Influência social: Diz respeito às influências que a Igreja deve exercer no contexto social em que está inserida (Atos 2.47). Não se trata aqui do Evangelho Social, ou da militância marxista da Teologia da Libertação, mas do cumprimento do papel da Igreja como sal da terra e luz do mundo (Mateus 5.14-16). É o aspecto profético da missão da Igreja dirigida ao mundo.

Como ocorre o desenvolvimento da Igreja?

Levando-se em conta a ampla visão do desenvolvimento integral da Igreja temos de concluir que ocorrerá quando atuarmos em diversas frentes de ação, caso contrário será desequilibrado. Vejamos alguns princípios sobre isso para concluir nosso estudo de hoje.

1. A força motriz é Deus: Paulo nos ensina que embora um venha a plantar e outro a regar, no fim quem dá o crescimento é Deus (I Coríntios 3.5-9). Podemos elaborar os mais estratégicos planos que até venham a funcionar em um "balão de ensaio", mas se não estiverem de acordo com o coração de Deus, ainda que aparentemente os resultados sejam mensuráveis, serão ineficazes.

2. O papel de cada um de nós: Quando afirmamos que o desenvolvimento da Igreja só vem pela operosidade da evangelização e missões, estamos restringindo a missão da Igreja e a ampliação de seus ministérios como já tivemos a oportunidade de concluir nos estudos anteriores desta série. Para o desenvolvimento equilibrado e integral é necessário que cada um de nós desempenhe os dons específicos que Deus nos repartiu (Romanos 12.4,5; I Coríntios 12.4-6,11,14-26). Sobre isso Paulo nos ensina em Efésios 4.15-16: "Mas seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte efetua o seu próprio aumento para edificação de si mesmo em amor". Além de incluir o fato de que os membros de uma Igreja devam atuar em diversas frentes da Obra de Deus, Paulo ensina que o desenvolvimento da Igreja requer também vida espiritual amadurecida – Cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo – e isso envolve o crescimento numa vida de imitação a Cristo. Em resumo, nosso papel no desenvolvimento da Igreja é duplo: (1) Ter vida espiritual em constante crescimento; e (2) Desempenhar a diversidade de dons operacionais (ou de serviços) que Deus repartiu a cada um.

Penso que, se cada pastor e líder de Igreja considerar estes detalhes, teremos o envolvimento de todos os crentes para o desenvolvimento da Igreja, em vez de ficarmos dependendo de apenas alguns corajosos e esforçados membros que acabam se esgotando em cansaço e desânimo.

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