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Quem Eram Os Anabatistas?

Por João Oliveira Ramos Neto

A Reforma Protestante, no século XVI, teve quatro correntes principais. A primeira foi sistematizada por Martinho Lutero, na Universidade de Wittenberg, na Alemanha. Seus seguidores foram chamados de luteranos e criam que, ao contrário do que era então pregado pela Igreja Católica, as pessoas somente seriam salvas do pecado pela fé, e não pelas obras. A segunda corrente foi sistematizada por João Calvino em Genebra, Ulrico Zwínglio em Zurique e John Knok na Escócia. Seus seguidores receberam inicialmente o nome de reformados, e mais tarde ficaram conhecidos como presbiterianos. A terceira corrente é a reforma inglesa, pois teve início em 1534, quando o rei Henrique VIII rompeu com Roma e deu início à Igreja Anglicana. O quarto movimento foi chamado de Reforma Radical.

A Reforma Radical era composta por líderes cujas ideias pretendiam modificar substancialmente a Cristandade. Essa corrente, por sua vez, se subdivide em três grupos: Os racionalistas, como Karstadt, que não acreditavam nos dogmas que não podiam ser explicados pela razão, como a doutrina da Trindade, por exemplo. Os espiritualistas, como Thomas Müntzer, que acreditavam que a doutrina deveria ser baseada não somente na Bíblia, como também em revelações espirituais. E os anabatistas, cujas ideias eram difíceis de serem sistematizadas, pois suas comunidades eram extremamente heterodoxas. No entanto, é de suma importância que o estudante da história dos batistas as conheça, pois elas influenciaram consideravelmente tal denominação.

Em 1522, Ulrico Zwínglio, o principal padre da cidade de Zurique, na Suíça, rompeu com o papa em Roma e teve o apoio do conselho da sua cidade, que, naquela época era o órgão máximo de deliberação social. Zwínglio, então, começou uma proposta de reforma doutrinária e adotou várias ideias que estavam sendo veiculadas por Lutero em Wittenberg. Alguns de seus discípulos, porém, não estavam satisfeitos com as mudanças que ele estava propondo, principalmente porque tais discípulos não encontraram na Bíblia sustentação para o batismo de crianças recém-nascidas. Eram eles Conrad Grebel e Félix Manz. Eles tentaram argumentar, mas Zwínglio se manteve inflexível, levando-os ao rompimento formal em 21 de janeiro de 1525, quando começaram uma pequena igreja na casa de Manz, sendo todos eles rebatizados por George Blaurock. Nascia uma comunidade totalmente separada do Estado, composta somente de adultos que decidiram por conta própria serem batizados, conscientes de uma conversão prévia.

Depois disso, o movimento cresceu, ao mesmo tempo que sofreu muita perseguição. Havia uma congregação de luteranos na Áustria que era liderada por Baltasar Hubmaier. Logo que ele teve contato com os anabatistas, adotou suas ideias e levou toda sua congregação luterana a tornar-se anabatista. Como várias congregações foram surgindo ao longo do território europeu, Michel Sattler, outro líder importante, reuniu vários representantes de diferentes lugares em uma cidade chamada Schleitheim, em 1527, onde eles redigiram a Confissão de Schleitheim. É o documento mais importante sobre os anabatistas, porque seus sete artigos definiriam no que eles acreditavam, fazendo com que o movimento passasse a ter uma identidade que, inclusive, os dinstiguisse de outros reformadores, inclusive os radicais.

No artigo 1, por exemplo, lê-se que os anabatistas estavam de acordo quanto à forma de se batizar uma pessoa: “O batismo deve ser dado a todos aqueles que se arrependem e mudam de vida, e que verdadeiramente acreditam que seus pecados são levados por Cristo, e a todos aqueles que andam na ressurreição de Jesus Cristo, e que desejam ser sepultados com Ele na morte, para que possam ser ressuscitados com Ele, e para todos aqueles que, com esta compreensão, o pedem a nós e o procuram para si. Isso exclui todo batismo infantil”.

O artigo 2, por sua vez, fala sobre a disciplina na igreja. Aquele irmão que insistisse em viver praticando algum pecado que provocasse escândalo público deveria ser desligado da comunidade. O artigo 3 trata da ceia. Para os anabatistas, somente cristãos regenerados, que tivessem sido batizados, deveriam participar da ceia. Para eles, também, o pão e o vinho não se tornavam verdadeiramente a carne e o sangue de Cristo, respectivamente, mas continuavam com a essência de pão e vinho, o que tornava a cerimônia um memorial simbólico. Os demais artigos versavam sobre questões sociais, como proibir cristãos de fazerem juramento público ou participar de guerras. Os anabatistas também estavam de acordo com que cada comunidade tivesse autonomia para escolher seu pastor. Isso também foi um rompimento anabatista com o sistema episcopal até então vigente com exclusividade na Cristandade.

E após o surgimento em 1525, alguns líderes anabatistas se destacaram tanto que, além de influenciar os batistas, deram início a denominações menores e exóticas que existem até hoje, e que despertam a nossa curiosidade. Veja só:

- Menno Simons (1496-1561): Simons era um holandês que foi ordenado padre em 1524, mas em 1536 se converteu ao movimento anabatista. Ele se destacou tanto que seus seguidores receberam o nome de menonitas e formam uma grande denominação cuja maioria está nos Estados Unidos. No Brasil, há algumas comunidades menonitas, com destaque para a região Sul. Em Goiânia há uma Igreja Menonita na avenida Paranaíba, no Centro. 
- Jacob Amman (1656-1730): Entre os seguidores de Menno Simons havia um pastor anabatista suíço chamado Jacob Amman. Seus seguidores foram chamados de Amishes e formam uma comunidade curiosa nos Estados Unidos porque se recusam a usar qualquer tipo de teconologia, como carros e telefones. Eles ficaram bem conhecidos em 2005 por ocasião do filme A Testemunha e geralmente têm sua imagem associada a charretes.
- Jacob Hutter (1500-1536): Hutter foi um anabatista italiano que mudou para a Morávia, Austrália, em 1533, tornando-se pastor daquela comunidade. Seu ministério foi tão próspero que a comunidade anabatista daquele lugar passou a ser chamada de Hutterita. Atualmente, há milhares de hutteritas nos Estados Unidos, e também compõe uma denominação protestante.
- George Fox (1624-1691): Foi um pastor anabatista inglês que em 1652 criou um movimento que recebeu o nome de Quaker. Entre seus membros, destacou-se o político William Penn, que se mudou para a colônia inglesa na América e fundou uma comunidade que recebeu o nome de Pensilvânia. Mais tarde, essa comunidade se tornaria um estado dos atuais Estados Unidos da América. Os quakers ficaram mais conhecidos pela famosa empresa de aveia Quaker Oats Company, cuja caixa amarela leva uma imagem de um velho quaker.

João Oliveira Ramos Neto
Bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Goiás, bacharel em
Teologia pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro, mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás

Saiba mais sobre a Reforma: Os Puritanos

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