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Os batistas e o grande despertamento

Por João Oliveira Ramos Neto

O chamado grande despertamento foi um período de grande avivamento espiritual entre o povo anglo-saxão, isto é, os Estados Unidos e o Reino Unido. Chamamos de despertamento, ou avivamento, uma restauração do fevor dos cristãos após um período de apatia espiritual. Nos séculos XVIII e XIX, muitos pregadores inflamados causaram grande comoção entre as pessoas daqueles países, ao ponto de mudarem o pensamento de grande parte da população. Afinal um avivamento caracteriza-se pelo grande número de conversão de pessoas que refletem direta e objetivamente na sociedade, principalmente nas questões sociais. O primeiro momento ocorreu entre os anos de 1730 a 1755. O segundo momento ocorreu entre 1790 e 1840.

O primeiro movimento teve início com um pregador puritano chamado Jonathan Edwards (1703-1758). Ele era pastor de uma igreja congregacional em Massachusetts, na época em que os Estados Unidos ainda eram colônia da Inglaterra. Seu sermão mais famoso foi "Pecadores nas mãos de um Deus irado", que ele proferiu em 8 de julho de 1741. Nesse dia, as pessoas que estavam na congregação e ouviram esse sermão foram tomadas de profundo pavor por causa de seus pecados. Elas choravam, se jogavam ao chão e lamentavam profundamente por seus erros.

Enquanto Jonathan Edwards trabalhava nos Estados Unidos, um outro pregador impactava auditórios na Inglaterra. Seu nome era George Whitefield (1714-1770). Ele estudou na universidade de Oxford e lá havia um grupo de anglicanos que se reunia periodicamente para buscar a Deus e estudar a Bíblia. Desse grupo participavam também John Wesley (1703-1791) e seu irmão Charles (1707-1788), que mais tarde, também como resultado do grande avivamento, fundariam a Igreja Metodista. 

A Igreja Anglicana, desde seu início no século XVI, adotara o calvinismo como base teológica. Dela surgiram os puritanos, que eram calvinistas extremos. No grupo que se reunia na universidade de Oxford houve uma grande divisão. É que John Wesley repudiou o calvinismo, passando a adotar o arminianismo. A diferença é que, para os calvinistas, Deus escolheu de antemão quem vai para o céu e quem vai para o inferno. Assim, para os calvinistas, só vai até Cristo quem foi por Deus predestinado para tal. John Wesley adotou o conceito de livre-arbítrio. Ao contrário da doutrina da predestinação, os arminianos crêm que os próprios indivíduos é que escolhem se querem aceitar ou rejeitar a salvação.

Como dissemos acima, uma característica importante de um avivamento é sua aplicação nas questões sociais. Uma aplicação direta do movimento liderado por John Wesley, que deu origem aos metodistas, foi a libertação dos escravos e a criação de escolas filantrópicas para os proletários que eram explorados no período da Revolução Industrial. Outra característica é que o protestantismo até então predominantemente calvinista passou paulatinamente a tornar-se predominantemente arminiano, como é hoje.

O segundo grande momento ocorreu entre 1790 e 1840, após o período da revolução e da independência dos Estados Unidos, em 1776. Seu principal representante foi o pastor presbiteriano Charles Finney (1792-1875), cujos grandes auditórios que o ouviam tinham reações semelhantes aos auditórios que ouviam Jonathan Edwards e George Whitefield, com o diferencial de que Finney pregava de improviso. Uma outra grande característica do segundo momento do grande despertamento foi a predominância dos pregadores batistas.

Na prática, a principal característica de todas, desses despertamentos, foi a ênfase que os pregadores deram na supremacia da experiência sobre a intelectualidade. Eles davam muita ênfase especialmente à experiência de conversão. Para eles, somente tornavam-se membros das igrejas aqueles que podiam dar um testemunho público da sua conversão, chamado de profissão de fé, e não mais se tornarem membros automaticamente por terem nascido em famílias ou sociedades cristãs.

O processo geralmente era assim: O pregador expunha a Bíblia para um grande auditório e, ao final, fazia um convite para que as pessoas se convertessem. Esse convite se chamava apelo. Geralmente as pessoas aceitavam ao convite levantando as suas mãos. Depois, elas eram doutrinadas até o dia do batismo, que antes era precedido por uma pública confissão de fé. Bom, o que você acabou de ler não é uma coincidência. Muitas igrejas batistas ainda têm essa mesma prática até hoje, e ela é uma influência dos grandes avivamentos.

E não podemos esquecer que isso está ligado ao predomínio da teologia arminiana. Atualmente há igrejas batistas que ainda adotam o calvinismo, e são chamadas de igrejas batistas reformadas. Mas, em sua grande maioria, os pregadores batistas fazem apelo ao final do sermão porque crêm que os indivíduos que compõem o auditório têm em suas mãos o poder de decisão de aceitar ou não a salvação eterna oferecida em Cristo. Essa ênfase numa experiência subjetiva de conversão como pré-requisito para se tornar membro de uma igreja batista, como ainda é predominantemente praticado em nosso país, bem como o predomínio de batistas arminianos (e não mais calvinistas) é fruto direto do grande avivamento anglo-saxão dos séculos XVIII e XIX.

João Oliveira Ramos Neto
Bacharel e licenciado em História pela Universidade Federal de Goiás, bacharel em
Teologia pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro, mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e doutorando em História pela Universidade Federal de Goiás



Nota pessoal: A Convenção Batista Brasileira adota uma posição intermediária (moderada) entre Calvinismo e Arminianismo, com relação aos cinco principais pontos que tratam os dois sistemas teológicos. Com relação ao exposto no texto acima, cremos que as pessoas têm livre arbítrio, e isso em consonância com a soberania de Deus - as duas questões não são excludentes. 

De fato, não cremos que Deus predestinou algumas pessoas para a salvação e outras para a perdição, entretanto cremos na doutrina bíblica da eleição, que se dá conforme a presciência de Deus (Rm 8.29; 1Pe 1.1-2), ou seja: no exercício da Sua soberania divina e à luz de Sua presciência de todas as coisas, Deus elegeu aqueles que, no decorrer dos tempos, aceitariam livremente o dom da salvação. A Obra da Cruz foi para salvar todas as pessoas, o que é o desejo de Deus (1 Tm 2:4-6; 2 Pe 3.9), porém só tem efeito naqueles que se arrependem e depositam sua fé em Jesus Cristo (Rm 10.9-10; Mc 16.16).


Leia também: Batistas proeminentes na História

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