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Opt-out: Por que executivos abandonam as empresas no auge de suas carreiras?

Publicado originalmente no Webinsider
e reproduzido sob autorização.

É incrível como ano após ano, com tanta discussão a respeito de gerenciamento de pessoas, processos, liderança e formação de times, ainda sofremos as mesmas dificuldades no nosso dia-a-dia corporativo.

Li estes dias um texto da jornalista Cláudia Izique, publicado no jornal Valor de São Paulo, em 18/03/2009 (Existe vida longe das corporações, veja o pdf).

O texto fala sobre a decisão de alguns executivos de deixar as empresas em que trabalham justo em um momento de sucesso profissional e ascensão. Por que um profissional com “alto potencial de crescimento” deixaria (e deixa) no seu momento mais áureo uma boa empresa onde teria um futuro de sucesso definido e garantido?

Satisfação pessoal e liberdade? Ganhar menos para levar uma vida de melhor qualidade?

Estas são algumas das respostas que encontramos para esta decisão, que para muitos pareceria insana. Conversei com o Vicente Tardin (o fundador e editor do Webinsider) antes de escrever este texto. Perguntei porque ele optou por deixar uma grande empresa anos atrás para se dedicar ao Webinsider e a resposta foi:

“Preferi a independência de pensamento. Com o tempo você não quer mais ficar engaiolado. Hoje, na prática, trabalho muito mais para poder manter o mesmo nível de ganho. Mas sou dono da minha agenda, não tenho chefe e me dedico às coisas que acredito e que gosto.”

Segundo a jornalista autora do texto publicado no jornal Valor, há cada vez mais executivos (e principalmente executivas) que optam por “sair fora” do mercado corporativo e escolhem uma carreira solo. Este movimento é chamado de “opt out”.

Claudia Izique explica que inicialmente o termo opt out, traduzido literalmente por optar por fora ou, no caso, afastar-se de uma organização, foi cunhado em 2003 pela jornalista Lisa Belkin, em reportagem publicada no New York Times, para descrever a iniciativa de um número alarmante de mulheres executivas altamente qualificadas que, na época, trocavam a carreira pela maternidade.

Em um segundo momento o opt out passou a referir-se ao crescente êxodo de profissionais de ambos os sexos que, voluntariamente, decidem romper com as formas de carreira tradicionais.

O movimento opt out está ligado às diversas formas pelas quais homens e mulheres têm decidido se afastar do trabalho corporativo por escolha - seja pela maternidade, por um outro trabalho individual como consultor, ou ainda para empreender e ser dono do próprio negócio.

Preocupadas com o crescimento constante do opt out, muitas empresas têm estudado e buscado investir em melhorias nas relações de trabalho para diminuir o êxodo dos bons talentos: negociação de períodos sabáticos, buscar trazer os filhos dos colaboradores para perto nas creches, propiciar horários mais flexíveis de trabalho e home ofice são algumas das medidas adotadas que tem sido praticadas.

Estas vantagens podem ajudar?

Sim, ajudam e podem diminuir a insatisfação com alguns pontos. Mas devemos ter em mente que a grande questão do opt out é que ele é fruto de um profundo momento de reflexão e tomada de consciência de homens e mulheres que, infelizes com a vida, com as pressões do dia-a-dia e a falta de prazer que vivem no trabalho, de repente se fazem a pergunta:

“Estou realmente fazendo aquilo que queria da minha vida?”

Fazer o que gosta. Dinheiro. Tempo.

Outro dia em uma conversa sobre o que eu gostaria realmente de fazer da minha vida, um amigo relembrou uma fala sábia:

“A gente gasta toda a saúde e vida para ganhar dinheiro. Aí, chega no fim da vida a gente tem que gastar todo o dinheiro para recuperar a saúde e vida, mas… já foi!”

Não ter tempo para suas coisas e para suas pessoas e família. Este é um dos pontos fundamentais ligados ao opt-out. A consciência de que a vida está passando e que você não está feliz onde está, com a pessoa que você é é um murro na boca do estômago e faz qualquer um se mover. Se mover em busca de mudança, de encontrar sentido em sua vida e de ter prazer no que faz todos os dias.

O que mais fazemos todos os dias? Trabalho. No mínimo 10 horas de trabalho todos os dias. Esse é o ponto. O tempo. A falta de tempo.

Uma das grandes diferenças entre os homens e os outros animais é a capacidade de pensar, criar, transformar. o ser humano foi capaz de reprimir alguns instintos animalescos/selvagens e submeter-se a regras, leis, criando a nossa civilização.

A transformação da energia represada destes instintos em energia criativa é o que dá origem ao trabalho.

O trabalho deve poder dar vazão a esta energia e propiciar satisfação e prazer. Não trabalhamos só porque necessitamos da remuneração para nossa vida. Trabalhamos porque temos desejo de criar, transformar, dar forma ao pensamento, nos identificar com o resultado do que criamos.

Está mais do que provado em diversas pesquisas sobre a felicidade, e cito aqui um livro com este título (Felicidade), organizado pelo Eduardo Giannetti, onde, entre outras muitas boas coisas, é apresentado um dado que demonstra como só até um certo ponto – o da satisfação das necessidades básicas de subsistência (comer, dormir, não sentir frio etc) - a felicidade está diretamente relacionada à quantidade de dinheiro que temos:

    “o crescimento compra felicidade nos paises extremamente pobres, mas, a partir do momento em que a nação atinge determinado nível de renda (cerca de US$ 10 mil anuais per capita… acréscimos adicionais de renda não mais se traduzem em ganhos de bem-estar subjetivo; entre 1975 e 1995, por exemplo, a renda média por habitante nos Estados Unidos aumentou 43% em termos reais , ao passo que a felicidade média dos americanos não saiu do lugar.” (Gianetty, Eduardo, São Paulo, Cia. Das Letras, 2002, pg.64)

A partir deste ponto, o que torna uma pessoa feliz?

Não adianta oferecermos mais e mais bônus, comissões, participação, a um sujeito que quer muito mais da vida! Quem se fez a pergunta original do opt out (”Estou realmente fazendo aquilo que queria da minha vida?”) não consegue mais “vender a alma ao diabo”.

Acredito que existem saídas para esta situação e estas envolvem mudanças radicais de atitude das empresas e das pessoas.

Talvez se as empresas fizessem o que, por exemplo, o Google faz, teríamos uma outra situação. O Google permite que 20% do tempo do trabalho dos funcionários seja dedicado a projetos pessoais ligados ao projeto macro da empresa. Foi assim que foi criado o Orkut e outros produtos.

Conversei com a gerente comercial do Google no Brasil, Adriana Grinenberg, que recentemente foi mãe e poderia ser um exemplo de executiva que optaria pelo out.

Segundo Adriana, a grande diferença entre o Google e outras empresas reside na modernidade e jovialidade da visão que existe sobre as relações de trabalho e de como elas são construídas. Um olhar muito diferente daquele do passado, onde a liberdade não era jamais oferecida, por medo.

Adriana afirma que se sente livre e super bem acolhida em um ambiente de trabalho que respeita a necessidade de cada um e sabe que o colaborador não está ali para simplesmente vender suas “horas de trabalho”. O colaborador é visto em seu comprometimento, criatividade, paixão pela marca, dedicação.

“Posso me dar o luxo de sair pontualmente às 18hs para buscar meu filho na escolinha, sem medo de ser julgada pelos colegas porque saio cedo. Chego em casa, dou banho no meu filho, jantamos em família e depois coloco ele para dormir.Depois disso, com toda tecnologia, ainda vejo meus e-mails, se precisar faço uma call com alguém…”

Se as empresas cedessem parte do tempo que os colaboradores trabalham para que eles de dedicassem a seus projetos e vida, talvez fosse possível minimizar a falta de prazer e a falta de identificação com a empresa e seus objetivos.

Talvez o modelo de horas de trabalho nascido no século XIX é que seja o grande problema. Se fosse permitido o trabalho por missões e metas dentro ou fora da empresa e não por x horas por dia dentro da empresa, certamente haveria uma produtividade e felicidade no trabalho maior. Isso só é possível fora das corporações? Quando se é dono do próprio nariz?

As empresas devem acordar para isto. O homem de hoje (principalmente o jovem) não suporta mais vender seu tempo integralmente. Ele quer ter tempo para criar, fazer nada, se relacionar e trabalhar.

O modelo de horas de trabalho em um ambiente controlado nasceu no chão de fábrica e talvez ainda se aplique a ele. O prestador de serviços, principalmente o de serviços intelectuais e não braçais não sobrevive a este controle…

Saí há dois meses de uma grande empresa multinacional e agora estou em um impasse: o que faço da minha vida? Busco outra empresa? Crio uma própria? Volto para a Universidade para seguir carreira acadêmica? Volto para a psicanálise?

Tenho uma amiga, Cinthia Sanches Lima, que virou a mesa, ousou alto, tirou um ano sabático e fez aquilo que muitos de nós (eu inclusive) adoraria ter coragem de fazer!

Depois de uma viagem ao Nepal, onde ficou um mês meditando em um monastério budista, passando depois por Darjeeling à procura de um melhor conhecimento dos chás e suas propriedades, ela voltou ao Brasil e decidiu virar a vida de ponta cabeça. Pesquisou, estudou muito e decidiu, após ver o maravilhoso filme Chocolate, que iria abrir uma chocolaterie!

Fez um curso no Canadá, outro em Nova York e trocou muita informação com profissionais da França e Bélgica… Sozinha construiu um sonho!

Sozinha cuidou de todos os mínimos detalhes: da reforma e decoração impecáveis de um lindo sobrado na Vila Nova Conceição a cada embalagem, as caixinhas fantásticas onde são colocados um a um os chocolates, cada qual com sua história gastronômica e com uma arte final que lhe confere beleza e sabor indizíveis!

A luz ambiente, a árvore de cacau em um charmosíssimo jardim de inverno… Ao chegar na lojinha vi a chocolaterie de meus sonhos!l A música de Madeleine Peyroux completa o clima intimista e acolhedor… temos vontade de sentar ali em uma das confortáveis poltronas, pegar um bom livro, ou um bom amigo para um papo de horas e, com uma linda chaleira transparente de vidro, onde no interior vemos uma flor de jasmin se abrir lentamente e fazer um dos mais delicados e saborosos chás que já tive a oportunidade de saborear, podemos enfim provar o mais gostoso chocolate belga do mundo!

Bombons e trufas com créme brullé, especiarias marroquinas, goiaba com brie, folhas de limão tailandês com menta… cada um é uma experiência única de sabor, maciez, doçura, enfim! Escrevi tudo isso, pois a Cintia é uma referência viva para mim! Ela “opted out”.

Sei que nestes tempos difíceis, todos nós estamos buscando uma bela luz para nos guiar… Acho que a Chocolat des Arts pode ser uma delas… uma linda e saborosíssima inspiração! Visitem!

Ana Clara Cenamo (ana.cenamo@gmail.com). Psicanalista e publicitária, executiva de marketing e desenvolvimento de negócios.


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